Enfrentando o Luto

Papai, onde você está?    

Mike e Marilyn Phillipps

Uma noite, há muitos anos, nós recebemos uma ligação urgente. Alguns dias antes, nós havíamos conhecido um casal cuja família e o casamento foram transformados quando eles se inscreveram para participar do grupo Casados para Sempre. O marido fora um alcoólatra por quinze anos, resultando em muito sofrimento para a família e o casamento. Miraculosamente, Jesus libertou o esposo do alcoolismo e ele e sua esposa aprenderam o plano de Deus para o casamento. Eles foram convidados para compartilhar seu incrível testemunho do poder de cura de Deus, em nosso programa de televisão. Pela primeira vez em sua vida conjugal, seu lar estava repleto de alegria e paz.

Agora a voz no outro lado da linha dizia que o esposo havia sofrido um terrível acidente e que fora levado para o pronto socorro. Junto com outro líder corremos para o hospital. Durante o percurso oramos, “Senhor permita que este homem viva. Eles estão começando a viver as Suas bênçãos.” Nossa fé era grande, embora soubéssemos que as circunstâncias eram graves.

Quando chegamos ao hospital fomos conduzidos a uma pequena sala no fim do corredor do setor de emergências. Nós sabíamos que este não era um bom sinal, mas nós estávamos determinados a permanecer em fé. A sala estava muda. Vários parentes e amigos estavam sentados orando silenciosamente. Em um sofá três pequenas crianças acotovelavam-se tentando desenhar um ao lado do outro. Nós nos viramos e vimos a mãe retornando acompanhada do médico, de um lado, e do capelão, do outro. O olhar em seu rosto nos contou o que não queríamos ouvir.

Ela sentou-se em uma poltrona e reuniu os filhos em seus braços. Com a voz embargada, ela falou docemente com eles, “Crianças, o papai não sobreviveu!”
As palavras tocaram a todos nós, mas atingiram às crianças com uma força feroz. Em uma única voz eles gritaram “Não”! Repetidamente, eles gritaram aquela simples palavra: “Não”! Aquela palavra ecoou pela sala e foi somente abafada por seus soluços. Aquela única palavra ressoou em nossos ouvidos. De repente ela começou a multiplicar-se em nosso interior. De pé naquela sala, começamos ouvir as primeiras centenas, depois milhares, e por fim milhões de “Não” ecoando dentro de nós. O choro de muitas crianças era perturbador. Quando não podíamos mais suportar o som, o Senhor falou em nossos corações.

“Vocês ouvem o choro desses pequeninos que acabaram de perder o pai. Vocês entendem a dor deles. Vocês padecem pela perda deles. Contudo, todos os dias milhões de crianças em todo o mundo perdem um dos pais através do divórcio e não há quase ninguém que ouça o choro deles. Não esqueça o que eu mostrei a vocês nesta noite. Não esqueça o choro que vocês ouvem dentro de seus corações agora. Ele é o choro interior do luto silencioso, dos pequenos que perderam um dos pais.”

A sala onde estávamos pareceu criar vida. Um a um os parentes e amigos presentes passaram a confortar a família. Carinhosamente pegavam as crianças em seus braços e com ternura sussurravam palavras de esperança em seus ouvidos, “papai está nos céu com Jesus agora”. Enquanto eles abraçavam e consolavam aqueles pequeninos, Deus outra vez falou aos nossos corações. “Vocês estão ouvindo alguém dizer a essas crianças que o que aconteceu foi uma coisa boa. Alguém está dizendo que as coisas agora vão melhorar? Algum deles está dizendo que a vida deles vai melhorar agora que seu pai se foi? Contudo, é exatamente o que filhos do divórcio ouvem quando expressam sua tristeza pela sua perda.”

Nós então começamos a perceber que com muita freqüência, no esforço de aliviar a própria dor, os adultos desprezam a tristeza e a consternação dos filhos. Pelo fato dos adultos racionalizarem que o evento do divórcio deverá solucionar os problemas, são levados a pensar que são capazes de convencer também as crianças de que isso é verdade.

Para uma criança, o divórcio pode ser ainda pior do que a morte. Num dado momento, a criança chega a compreender a morte. É muito mais simples enfrentar a morte do que entender porque um dos pais que eles amam decidiu ir embora e agora vive do outro lado da cidade com uma nova família. Nós já ouvimos muitos conselhos dirigidos a casais divorciados em que se recomenda dizer aos filhos que o conflito é entre pai e mãe, e que isso nada tem com os filhos. Nós nos perguntamos o que deve um filho pensar quando seus pais então se casarem novamente e tiverem outros filhos. Nossa suspeita é de que a mensagem seja muito mais forte e clara do que qualquer coisa que papai ou mamãe possam ter dito na intenção de confortá-los